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A espiritualidade nada mais é do que compreender o jogo da consciência tentar descobrir o que vem a ser essa fraude, buscando-lhe a origem.

Sri Nisargadatta Maharaj

Existe uma antiga história acerca do prana no Prasna Upanishad.2

Um grupo de busca espiritual procurou um mestre que os ajudasse a atingir a sabedoria suprema. Para responder as suas perguntas, o professor exigiu que eles permanecessem por um ano em meditação e em celibato. Agiu dessa forma para que eles pudessem adquirir controle sobre os próprios sentidos. Eles concordaram. Depois de passado um ano, um deles perguntou: "Do que nascem todos os seres humanos?" O mestre respondeu que a consciência, buscando a diversão, criou os opostos, matéria e energia, com a idéia de que essas duas coisas produziriam todos os seres.

 
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O Prana, a energia, é representado pelo Sol, e a matéria é representada pela Lua. Esses opostos, energia e matéria, criaram juntos o universo.

Os estudantes fizeram outra pergunta: Quantas "divindades" amparam uma pessoa, e qual delas é a principal e mais gloriosa? Eis a resposta do professor: Quantas divindades (impulsos inteligentes) controlam o corpo e qual a principal dessas? As divindades responderam todas ao mesmo tempo. O espaço disse: "Eu sou a principal", e o mesmo disseram o Ar, o Fogo, a Agua e a Terra, as funções da Fala, da Mente, da Visão, da Sensação e da Audição. Cada uma delas alegava ser a responsável por manter a integridade do corpo e por permitir que ele funcionasse.

O chefe Prana disse a essas divindades: "Não se iludam. Sou eu quem não permite que o corpo se desintegre." As outras divindades estavam descrentes. Notando essa atitude, o chefe Prana começou a estender-se acima do corpo. De imediato, todos os outros o acompanharam. Em seguida, o Prana permaneceu tranqüilo e todas as outras divindades ficaram tranqüilas. Percebendo a realidade, todas as divindades começaram a louvar o Prana como seu chefe. A verdade é que, assim como os raios da roda de uma carroça se fixam no centro da roda, tudo gira em torno do prana.

O mestre então ampliou essa idéia: o prana reside com os órgãos e mantém o corpo numa unidade. O prana é adorado como aquele que cria, destrói e preserva todo o universo. Ele aparece como o Sol, a chuva, o fogo, o ar, como a força que controla todo o mundo e os céus. O prana é louvado como a entidade que a tudo permeia, e como o senhor de todas as criaturas. Mais uma vez, um estudante perguntou: "De onde vem esse prana, como ele penetra no corpo e como ele sustenta o mundo psíquico?" O mestre respondeu: "O prana vem do Eu (da consciência pura). Ele é atraído para o corpo pela mente e se divide em cinco forças que governam o corpo. O prana funciona como um rei, que distribui o trabalho entre seus ministros — nesse caso, cada um dos cinco pranas controla uma região do corpo." Essa história, simbólica, explica a natureza e as ações do prana. Quase todas as antigas escrituras usam metáforas e símbolos para explicar o conhecimento do sábio, derivado de suas percepções imediatas da realidade. Os sábios antigos usavam um método subjetivo para observar e perceber a realidade, tal como os cientistas hoje usam métodos objetivos para estudar a realidade. Ambos são métodos válidos, mas, uma vez que a ciência precisa ainda reconhecer o prana, nosso manual seguirá a sabedoria dos antigos yogues ou videntes que, muito tempo atrás, já conheciam os segredos do prana.

O prana é a energia vital do universo. Os seres estão vivos devido ao prana. As tradições apresentam nomes diversos para o prana: força vital, ki, chi, orgônio, e simplesmente "energia". Embora muitas vezes entendido como respiração, prana não é respiração; o prana cavalga na respiração, mas é diferente da res-piração. O prana penetra no corpo e sai dele seguindo o movimento da respiração. Tal é a natureza do prana: movimento.

O termo prana vem do sânscrito; significa antes (pra) da respiração (ana).3

O prana é neutro; é pura energia, sem quaisquer qualidades. Essa energia pura pode adquirir qualquer qualidade sem perder sua pureza; é o que ocorre conosco, por exemplo, quando vestimos nossas roupas: ao fazê-lo, nós nos adaptamos a um modo de vestir, mas, ainda assim, continuamos sendo a mesma pessoa.

O prana pode ser usado para facilitar a meditação, o sexo, o combate ou a cura. Ele dá vitalidade ao corpo físico e nos dá também forças para pensar. Prana é energia física e mental: "O movimento do pensamento na mente surge do movimento do prana; e o movimento do prana surge em função do movimento do pensarnento na consciência. Eles formam assim um ciclo de dependência mútua, como o movimento das ondas e das correntes marítimas".4

Essa citação encontra-se numa antiga escritura, uma das mais respeitadas na Índia, e tem mais de 5000 anos. Portanto, a informação apresentada aqui não é nova. Existe há milhares de anos toda uma ciência construída sobre os efeitos do prana.

Tradicionalmente, a yoga ensina que existem cinco tipos de prana no corpo: o prana, o apana, o samana, o udana e o vyana. Existe também o Prana cósmico que a tudo permeia, e que é a fonte dos cinco pranas confinados ao corpo, cada qual com uma função específica. Dos cinco pranas do corpo, em geral se admite que o prana e o apana são os mais importantes. O prana repousa no coração e na cabeça; o apana repousa na base da coluna e é conhecido como a "respiração para baixo". Juntos, o prana e o apana formam a polaridade da respiração. Essas duas forças são, na verdade, o que dá força à respiração. O prana é o aspecto solar (masculino) e o apana, o aspecto lunar (feminino). Dos outros pranas, o samana repousa na região do umbigo e é conhecido como a "respiração para cima"; o udana concentra-se na garganta porém move-se para cima e para baixo no corpo todo; e o vyana se espalha pelo corpo todo, mantendo-o unido.5

A cura prânica é um ramo da yoga, que é uma das ciências védicas. O que é exatamente a yoga? Há muitos ramos da yoga. Alguns dizem respeito ao corpo, outros à mente, alguns têm poderes ocultos, e alguns dizem respeito à percepção de si mesmo ou à iluminação.

Originariamente, os antigos videntes eram mestres em todas as ciências conhecidas: Ayurveda (medicina), posturas de yoga, meditação, matemática, astrologia, geologia, guerra e religião. Essas eram as chamadas ciências védicas. Normalmente, um sábio se especializava em um campo, mas esperava-se que ele conhecesse os fundamentos de todos os oito ramos de conhecimento. Ayurveda, hatha-yoga e pranayama estavam relacionadas com corpo físico. A cura prânica é originária desse ramo da tradição védica.

Em geral, a yoga é entendida como um método pelo qual se atinge uma "união" com o divino ou com Deus. Embora seja possível praticar o hatha-yoga sem estar ciente do divino, isso não é yoga em seu sentido mais puro, mas simplesmente um programa de exercícios indiano para conservar a saúde física. Se, entretanto, praticarmos o hatha-yoga conscientes de que a mente, o prana e o corpo se originam de uma mesma fonte, para nós desconhecida, isso é yoga em seu significado mais puro.

Yoga não é o método nem a prática; na verdade, yoga é nossa busca pela fonte desconhecida. A cura prânica é apenas um método; ela também pode ser usada como yoga, para nos levar à fonte de nossa força vital e de tudo o que existe.

Yoga, é a tradição de sábios e textos que faz a pessoa transcender o corpo, a manifestação, e atingir o inalcançável, que está além tanto do que é manifesto quanto do que é não-manifesto. "Eu saúdo o Eu Supremo. Foi o Eu que primeiro me ensinou o conhecimento brilhante do Hatha-yoga. O Hatha-yoga é como uma escada: aquele que desejar pode subir até o estado mais elevado de Raja-yoga".6

A cura prânica é uma abordagem não-violenta da saúde e qualquer pessoa pode aprendê-la. Não agride o corpo, a mente nem as emoções. Não tem nenhum sistema, nenhuma classificação e não é nociva à saúde. Energizando o corpo, o prana o revitaliza naturalmente, deixando-o apto para lutar contra as doenças e para conservar a saúde. Esse é um método de cura tão antigo quanto a própria humanidade, um método totalmente natural para a raça humana. A cura prânica é uma abordagem holística; em outras palavras, ela revitaliza todo o organismo humano — corpo/mente/emoções. Para ser mesmo eficaz, a verdadeira cura deve trabalhar não apenas com a doença manifesta, mas com a raiz do problema.

A RELAÇÃO ENTRE 0 PRANA E A MENTE

Tal qual a mente, o prana tem um movimento natural. O que é a mente? A mente é o processo pelo qual os pensamentos se desenvolvem e se desvanecem, ou aparecem e desaparecem, na consciência, habitualmente conhecido como o ato de "pensar".

A mente é uma seqüência de pensamentos. A mente e o prana são dois aspectos do mesmo fenômeno; ambos existem juntos e são inseparáveis. O prana é o princípio do movimento e a mente é o princípio da inteligência. Portanto, todas as ações requerem prana, inclusive a ação de pensar. Quando tornamos a respiração mais lenta, os pensamentos também diminuem seu ritmo. O pranayama yoga, eficiente técnica de meditação, usa essa compreensão para aquietar a mente em contínua atividade. "Pelo controle da energia vital, a mente também é refreada: assim como a sombra desaparece quando a substância foi eliminada, a atividade mental cessa quando a energia vital é refreada."7

Essa compreensão é a base de toda cura esotérica. As conseqüências do fato de haver uma completa interdependência entre a mente e a energia são tão amplas, que poucos de nós nos damos conta de seu potencial.
O termo consciência, como o usamos aqui, é sinônimo de Existência, de Fonte, de Eu, de Amor ou de Deus. A mente é, com freqüência, confundida com Consciência. A mente é aquilo de que a Consciência tem notícia. O que é então consciência? "Podemos, quem sabe, defini-la nestes termos: A Existência, ou consciência, é a única realidade. A Consciência acompanhada do ato de despertar, chama-se estar desperto. A Consciência acompanhada do ato de dormir, chama-se dormir. A Consciência acompanhada do ato de sonhar, chama-se sonhar. A Consciência é a tela na qual as figuras surgem e se desvanecem."8

Atreya - Prana  - O Segredo da Cura Pela Yoga

2 Eight Upanishads, Prasna Upanishad, trad. para o inglês de Swami Gambirananda (Calcutá: Advaita Ashrama, 1992), pp. 407-503.
3 Sri Nisargadatta, I Am That (Bombaim, Índia: Chetana, 1991), Ap. 3.
4 Swami Venkatesananda, trad., Yoga Vasistha: The Supreme Yoga (Shivanandanagar, Uttar Pradesh, India: Divine Life Society, 1991), p. 313, seção 5, capítulo 78, verso 14.
5 Sir John Woodroffe, The Serpent Power (Madras, India: Ganesh & Co., 1989), p. 77.
6 Kevin e Venika Kingsland, trad., Hathapradipika (Inglaterra: Grael Communications, 1977), p. 15, verso 1.
7 Swami Venkatesananda, Yoga Vasistha: The Supreme Yoga, p. 229, seção 5, capítulo 13, verso 83
8 Sri Ramana Maharshi, Be As You Are, org. David Godman (Nova Delhi: Penguin Books India, 1992), p. 14

 
     
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